terça-feira, 29 de setembro de 2015

Diga sim às experiências


Amo velhinhos. Principalmente porque sei que eles possuem uma percepção de mundo muito incrível e têm grandes lições pra ensinar para os mais novos como eu. Claro, eles nasceram em um tempo muito diferente do nosso, tiveram experiências durante toda a vida. Se existem pessoas que sabem o que a vida é, são eles.

Eu também valorizo pequenas situações, pequenas conversas, principalmente com mais velhos, porque elas me fazem refletir sobre facetas da vida que eu talvez ainda não havia me atentado.

Hoje estava no restaurante almoçando, e começou a chover. Eu já estava saindo, com meu guarda chuva na mão, e uma senhora bem velhinha me cutucou na porta do restaurante. Eu já havia reparado ela antes, porque ela quase sempre almoça no mesmo horário que eu. Não existe ninguém naquele restaurante com um passo mais lento que o dela. Ela leva quatro vezes mais tempo do que eu pra servir a comida, pesar seu prato, se sentar, e comer a pouquíssima quantidade de comida que serve. Sim, eu observo as pessoas nos lugares onde vou.

Logo que me cutucou ela disse:
- Eu já sabia que ia chover e mesmo assim não trouxe meu guarda chuva - eu já estava me despedindo do meu, pronto pra ceder pra ela, quando ela terminou de explicar:
- Sabe porque? Eu não o trouxe porque eu quero voltar na chuva.

Poucas palavras. Poucos segundos. Ela deu um grande sorriso. Perguntei se ela não se importava em pegar um resfriado. Ela simplesmente deu de ombros, rejeitando minha demonstração de cuidado, como as crianças fazem quando desobedecem seus pais. Eu ainda queria avisá-la que aquela chuva provavelmente era ácida, porque há muito tempo não chovia, e ela poderia ter um câncer de pele ou algo pior (sendo exagerado), mas achei melhor não estragar aquele momento que parecia ser só dela. Mal ela sabia que aquele momento também era meu. Em seu passo (mais lento, impossível) ela saiu debaixo da chuva, da qual provavelmente estava com muita saudade, assim como eu. Mas diferente de mim, ela não se protegeu. Ela queria sentir a água da chuva em sua pele.

Brincadeiras à parte, aquela conversa me fez pensar: nós perdemos muitos momentos importantes e únicos na nossa vida, e perdemos muitas oportunidades ao tentar nos proteger e nos resguardar de coisas que não vêm necessariamente pra nos fazer mal. Muitas vezes temos medo de arriscar porque achamos que podemos ser prejudicados, ou que vamos sair perdendo. Mas é bem provável que essas experiências nos ensinem lições incríveis que poderemos levar por toda a vida proporcionando satisfação pessoal. Penso que grandes invenções, grandes ideias, filmes geniais, histórias sensacionais são resultado de experiências de pessoas que escolheram arriscar.

Algo que acredito, e que hoje valorizo mais do que ontem, é que as experiências e os processos devem ser valorizados tanto quanto os nossos objetivos. Nem sempre vamos alcançar o que queremos, da forma que queremos. Mas o processo e as experiências que vivemos durante nossa caminhada sempre vão nos ensinar algo valioso, se estivermos dispostos a aprender. Vão abrir nossa mente para enxergar a vida de formas diferentes, perceber o mundo e as pessoas sem conceitos pré-formados na nossa mente, valorizar o importante, e dar menos valor para o não precisa ser tão valorizado. O que precisamos (sempre me incluindo) é saber como arriscar, quando arriscar e principalmente, mudar nossa percepção sobre pequenas e grandes experiências.

Da próxima vez que vier a chuva, experimente deixar de lado sua proteção. Experimente sentir a água na pele, lembrar o gosto da chuva. Talvez você pegue um resfriado. Talvez não.

2 comentários:

  1. Acredito que o que acabei de ler tenha me tocado ainda mais pelo fato de ser assumidamente uma grande amante da chuva e velhinhos. Talvez não tenha importância, mas senti uma vontade enorme de tentar escrever o que se passou aqui comigo assim que li seu texto. Esses últimos dias, com clima de "recomeço" em todos os lugares e pessoas, decidi que não queria, nem podia ser só mais outra qualquer com vontade de mudar algo e acabar não fazendo nada. Desde então tenho passado muito tempo inquieta e pensativa. Sempre valorizei as pequenas coisas, pequenas atitudes, consigo apreciar gestos simples que provam que ainda há bondade no caos que o mundo tem se tornado. Mas depois de ler seu post percebi que antes de qualquer grande atitude que pensar em tomar pra transformar algo em minha vida, eu posso simplesmente passar a valorizar ainda mais as "pequenas" demonstrações do amor de Deus por nós, todos os dias. Coisas que nos passam despercebidas por costume ou até mesmo ingratidão. Então o plano é: sair da zona de conforto que me limita e me concentrar em aprender a dizer mais "sim" as experiências. Gosto da forma como observa as coisas e as transmite em palavras. O mundo precisa de mais pessoas com a percepção como a sua. Fique com o Rei. Abraço.

    ResponderExcluir
  2. Palavras são palavras jogadas ao vento, as vezes no relento ou no pensamento de alguém, que faz brotar sentimentos sobre coisas passadas ou inspirar acontecimentos vindouros.

    ResponderExcluir